Domingo, 14 de Janeiro de 2007

A MATA REAL DE ALFANZIRA-MOURISCAS

A MONTARIA DE ABRANTES E SUAS MATAS REAIS NOS SEC. XIV E XV
 
A MATA REAL DE ALFANZIRA- MOURISCAS
 
Por Carlos Lopes Bento[1]
 
 
Pretendo, com este curto trabalho, dar a conhecer alguns factos sociais da história medieval do concelho de Abrantes, realçando, especialmente, os que tiveram como palco Mouriscas e estão relacionados com a instalação, na freguesia, da mata real de Alfanzira.
 
Baseado em documentação escrita, a sua elaboração teve como base os artigos escritos por Nicole Devy-Vareta[2], em 1985: “Para uma Geografia Histórica da Floresta Portuguesa. As Matas Medievais e a “Coutada Velha” do Rei”, e Joaquim Candeias da Silva[3], em 2005: “O Canal Filipino de Alfanzira-Mouriscas- Uma Proposta de Preservação Integrada”.
 
Para se conhecer um pouco melhor os principais espaços florestais das montarias reais e alguns traços da “coutada velha” e das suas matas reais, as palavras de Devy-Vareta:
 
..........................................................................................................................................
As Ordenações Afonsinas transcrevem o Regimento dos monteiros de D. Duarte(1435) e a delimitação da “coutada velha”. Que tinham então atingido a sua maior extensão(Fig. 1)(...) .Na realidade a “coutada velha”seria um espaço florestal descontinuo, onde se encontravam, quer matas dispersas ao lado de pântanos ou charnecas e do espaço agro-pastoril, quer maciços florestais mais extensos nas áreas menos povoadas ou mais afastadas dos mercados urbanos. Todavia, as referências documentais parecem demonstrar que as matas ainda seriam preponderantes nas coutadas reais, no fim do século XIV.
Como na Historia Florestal são mencionadas as nomeações dos pequenos monteiros, é possível reconstruir aproximadamente o espaço florestal da montarias reais(Ver Anexo). Mas esta tarefa morosa torna-se ainda mais difícil ao tentarmos localizar as matas, que não eram então, e na maior parte dos casos, medidas.
O mapa das matas reais, que dominam na faixa litoral ocidental, pode ser interpretado à luz de vários factores locacionais vigentes durante a formação de Portugal. Numa primeira fase, foi certamente a protecção à caça que levou os reis a coutarem as matas em regiões pouco povoadas e perto dos locais onde habitualmente residiam, ou ao longo dos itinerários mais frequentados. Assim se reservariam as serras do Soajo e do Cabril e as matas entre o Porto e Coimbra. Com o prosseguimento da Reconquista para Sul e a residência mais frequente do Rei em Lisboa, este espaço alargou-se até à serra da Arrábida, ou ainda em volta de Santarém ou de Évora, locais de estadias preferidas da corte. Com o respeito da tradição, ficaram coutados todos os terrenos de caça. Todavia, a partir do século XIV, a “coutada velha” não representava só o espaço destinado às caçadas reais. Os documentos demonstram que a exploração crescente de madeira e lenha suscitou uma legislação própria.[4]
 
                             
                              ------Limite da coutada velha
■ Sede de montaria
Fig.1- A “coutada velha”no século XV
Fonte: Ordenações Afonsinas(Livro I, Tit. 67. Costa Lobo. p.80(, História Florestal
                             
 
Devy-Vareta, Op. cit. p.61.
 
 
O Anexo acima referenciado, que nos fornece a localização das principias montarias com as respectivas matas do Rei(secs. XIV e XV ), indica-nos para a montaria de Abrantes as seguintes matas:
 
“Abrantes
 
Alfanzira, Cimalhas da Brancalha, Cuinhal, Maria Ouriz, Ribeira de Souto, Ribeira Viuvães, Rio de Moinhos, Tancos, Vale Amoreira. [5]
 
Pelos topónimos, que chegaram aos nossos dias, parece-me que, quase, todas as matas, se situavam na margem direito do Tejo, a jusante de Abrantes. Fazem excepção, as matas de Alfanzira, Cuinhal, Maria Ouriz e Ribeira de Viuvães, que, por isso, são mais difíceis de situar, geograficamente.
 
No entanto, quanto à de Alfanzira, graças ao trabalho do Prof.Joaquim Candeias da Silva, já citado, essa dificuldade está ultrapassada, visto o topónimo Alfanzira se situar no sul da freguesia de Mouriscas, junto ao Tejo, como de verificará de seguida.
 
O dito trabalho teve como base um conjunto de textos relativos às obras de engenharia hidráulica, concretizadas no médio Tejo, a montante de Abrantes, mandadas realizar pelo rei Filipe I, de Portugal, no período compreendido entre os anos de 1581-1582.
 
As obras, da responsabilidade do engenheiro Juan Baptista Antonelli, tiveram lugar no chamado “ Passo de Alfanzira” a duas léguas de Abrantes.
 
Dado que o topónimo Alfanzira já não fazia parte da memória dos mourisquenses vivos, coube ao Prof Candeias da Silva situá-lo com a ajuda da Carta Militar de Portugal 1:25 000 e, depois, confirmá-lo com uma ida ao local:
 
O sitio em questão localiza-se adentro do Tejo, a montante do Casal do Tejo e a jusante do Casal de Vale Covo, ambos na antiga vintena dos Cascalhos (freguesia de Mouriscas), onde também chamam o Cachão, por as águas do rio ali correrem com alguma pressão e ruído, (...).A paisagem, que ali se estende em grande lastro, é por isso agreste e esclavrada; mas a morfologia e constituição do solo, se por um lado dificultava a navegação, por outro permitia a instalação de engenhos, que em determinadas épocas do ano aproveitavam a boa energia hidráulica para molinação. [6]
 
Acrescenta, o mesmo autor, existirem, nos séculos XIV(finais) e XV, vários moinhos ou azenhas no Tejo, em Alfanzira.[7]
 
Os vários dados cronológicos referenciados apontam para uma maior antiguidade da mata de Alfanzira em relação aos “moinhos de Alfanzira”e, assim, para que estes e o “Passo de Alfanzira” incluissem, na sua designação, o topónimo Alfanzira.
 
Depois destes esclarecimentos, há que situar, na freguesia de Mouriscas, a mata de Alfanzira, que não ficaria distante tanto do “passo” como dos “moinhos” de Alfanzira referenciados, atendendo ao que escreveu Devy-Vareta:
 
Não de pode evitar o estabelecimento de uma estreita relação entra as matas da costa ocidental, onde se praticava um comercio de cabotagem, as vias terrestres e fluviais mais frequentadas e a “coutada velha”, reservada para o “desenfadamento” preferido do Rei e dos nobres da sua Corte-a caça. A partir do século XIV, esta “reserva” florestal iria revelar-se fundamental para o abastecimento dos mercados urbanos, e principalmente Lisboa”.[8]
 
No que respeita à sua situação geográfica, as fontes consultadas não deixam dúvidas: Alfanzira era uma mata da coutada[9] de Abrantes, pertencente à “coutada velha” do Rei sedeada, no sul da freguesia de Mouriscas, numa área pouco povoada e na margem direita do Tejo, rio que, então, constituía uma das vias fluviais mais movimentadas do País.
 
Considerando que o terraço da margem direita do Tejo, situado entre Vale Covo, Cascalhos e Sentieiras é constituído por solos vermelhos, de excelente qualidade agrícola e óptimos para o desenvolvimento florestal, será curial admitir que, nesse limitado espaço geográfico, tivesse existido uma mata, onde a caça, especialmente, o javali, seria abundante.
 
Candeias da Silva, no seu trabalho, ao caracterizar a área geográfica envolvente do “Canal de Alfanzira” fornece-nos, ainda, importantes dados a saber:
 
Mas, a zona, essa era habitada desde de tempos pré-históricos: é hoje bem conhecida, nas proximidades(limite do concelho de Mação), a Anta da Foz do Rio Frio, (...); estão identificados por ali, em ambas as margens, testemunhos de ocupação romana, porventura pequenos casais do Baixo-Império(estações de Vale Covo, Monte Morgado e Srª da Guia); e havia na mesma área e desde de tempos imemoriais, logo a montante, a Barca de Bandos, que fazia a transposição viária da Beira para o Alentejo, entre o sítio de Vale Covo e a Srª da Guia. (...). E temos ainda os velhos caminhos de sirga ou sirgueiros(corredores laterais de passagem, para que através deles pudessem os barcos ser puxados por cordas), que embora eventualmente do temo de Antonelli, poderão alguns decalcar trilhos anteriores.[10]
 
E, de seguida, esclarece:
 
“Relacionada com este Canal filipino, estaria certamente a ermida Nª.Srª da Guia(hoje na freguesia da Concavada), que lhe fica defronte, num terraço da margem Sul do Tejo, com excelente posição e visibilidade.”[11]
 
Eu diria que também a Mata de Alfanzira e a capela de S.Simão, esta situada mais a NW, a cerca de dois quilómetros, “também num lugar ermo, cuja ermida pertence à Igreja de S. Vicente da Vila de Abrantes[12]
 
Os caçadores que procuravam a Mata de Alfanzira, vindos da parte norte do Tejo, como Abrantes, Sardoal, Ferreira do Zêzere, ..., seguiam um itinerário que passava pela capela de S. Simão. Como, então, não eram fáceis as viagens por terra, em virtude da falta de segurança existente nas vias utilizadas, recorria-se, constantemente, à protecção divina. A capela de S. Simão seria, pois, um desses locais de oração e de súplica.
 
Ao procurarem este local de caça, que, em princípio era feita a cavalo, teriam necessidade de um local para o seu abrigo como dos seus animais. No espaço geográfico em análise não existem, pelo menos à vista, vestígios de algum edifício que tivesse servido de albergaria. Contudo, há um lugar habitado, muito antigo, chamado Castelo. Não estará este nome ligado a uma casa apalaçada, de maiores dimensões, que então serviria de albergaria? A gestão desse estabelecimento não caberia a um pequeno monteiro, que tinha, por função primeira, de fiscalizar o espaço da mata? São hipóteses que futuras pesquisas confirmarão ou infirmarão.
 
Quanto à sua origem o vocábulo, Alfanzira tudo aponta para que seja proveniente do árabe, tal como Alferrarede e Alvega, terras próximas, situadas, respectivamente, a jusante e a montante do referido canal. No que respeita ao seu significado, desconhece-se, aguardando-se que os especialistas se pronunciem.
 
Com o aumento demográfico, que exigia mais terras para a agricultura, e a crescente necessidade de madeiras e lenhas, as coutadas reais (e privadas) e suas matas, começaram, a partir do século XIV, a perder significado e, pouco a pouco, a desaparecer. Teria sido o que aconteceu à pequena Mata de Alfangira.
 
Tal acontecimento ter-se-ia verificado há vários séculos, visto ter perdido, da memória não só o nome da mata como também do topónimo que lhe deu origem.
 
Aqui deixo mais uma achega para a HISTÓRIA DE MOURISCAS E SUAS GENTES.
 
Mouriscas, Fev. 2007.
 
 
 
 


[1] - Nasceu no lugar de Casas Pretas, da freguesia de Mouricas e é Antropólogo, Prof. Universitário e doutorado em Ciências Sociais, especialidade em História dos Factos Sociais, pelo I.S.C.S.P., da Universidade Técnica de Lisboa.
[2]- Revista da Faculdade de Letras. .Geografia.Vol.I.Porto, 1985, p. 47 a 67. http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/artigo3321.pdf
[3] - Trabalho publicado na Revista Zahara do Centro de Estudos de História Local- Palha de Abrantes, ano3, número 6, Novembro de 2005, p.41-53.
[4] - Devy-Vareta, op cit. p.60 e 61.
[5] P. 61.
[6] - Idem, Ibid. p.41, 42, 43.
[7]- Para mais informação consultar: op. cit., p.43
[8] -Op. cit. p.54 e 55
[9] - As coutadas ou montarias eram áreas reservadas à caça. Por cada montaria era responsável um monteiro-mor, de nomeação régia, que tinha sob a sua dependência os moços do monte que eram cargos inferiores. Aos pequenos monteiros cabia a fiscalização das matas reais.
[10] -Idem, Ibid, 43
[11] - Idem, Ibid. p. 43.
[12]- CAMPOS, Eduardo e ROSA, Maria João, “As Memórias Paroquiais de 1758. Mouriscas”, in ZAHARA, Ano 3, Nº 6, p. 38.
publicado por casaspretas às 11:14

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